A difícil consolidação da experiência
Em seu novo livro, o poeta Heitor Ferraz discute a dificuldade de consolidação da experiência na vida contemporânea
28/09/2009
Julia Alquéres
Um a menos, "uma frase que nos revela a idiotice de nosso mundo", diz o poeta Heitor Ferraz que, com ela, dá nome a seu novo livro. Lançado dia 21 no bar Canto da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo,
Um a menos faz do cotidiano matéria-prima da poesia narrativa.
|
"Minha cabeça parece pular
como as bolas de vôlei
neste final de tarde
entre holofotes
e luas replicadas no céu baixo
Meus filhos cavam
o que pode ser mais um caminho
ou apenas o esconderijo para os dedos
e tratores de plástico
Com as sandálias na mão
a areia escorre
o tempo estanca
contra a planta
dos meus pés." |
Em entrevista à CULT, Heitor Ferraz contou um pouco sobre seus escritos e sobre a poesia brasileira contemporânea.
CULT - Como foi o lançamento do seu novo livro?
Heitor Ferraz - Divertido, como sempre. O lançamento tem essa função boa: de reunir os amigos. Há anos que não lanço em livraria por causa da restrição do horário. No bar, os amigos que trabalham (muitos são professores) podem chegar depois da aula. Mas depois do lançamento vem essa ressaca, esse medo de que o livro morra nas prateleiras das livrarias, como muitas vezes acontece com a poesia. E esse outro vazio que é o encontrar um novo projeto, e começar a persegui-lo.
CULT - Conte um pouco sobre como foi escrever
Um a Menos.
Heitor - Vou fazendo os poemas e esperando o momento em que percebo que há uma unidade, ou que faço um poema que consegue agregar os outros em torno dele. No caso específico do Um a menos, eu tinha vários poemas prontos e um dia, não muito agradável de rememorar, joguei fora toda a pastinha "Poemas" do meu computador. E fui dormir. Alguns dias depois, alguns poemas reapareceram na memória, indignados com o meu ato. Não sei se foi antes ou depois, meu amigo Carlito Azevedo, um dos grandes nomes da poesia contemporânea, me falou, durante uma conversa telefônica, de um artigo curioso da Piauí, sobre o Roberto Jefferson.
E lá aparecia essa pérola: "A vida é uma competição, e um homem que rega plantas em dia de chuva jamais será seu adversário. Um a menos". Estava achado o título do livro. Nada como uma frase que nos revela a idiotice de nosso mundo. E numa tarde de trabalho comecei a anotar os poemas que chegavam da memória. Fui anotando, um depois do outro, muito modificados, claro, que minha cabeça não é tão boa assim. Quando percebi, tinha um núcleo pronto na minha mão. E o título. Com esse núcleo, escrevi o projeto que seria o livro e inscrevi no Programa Petrobras Cultural.
Para minha alegria, ele foi aprovado. Depois disso, acho que passei dois anos trabalhando nos poemas, reescrevendo, incluindo outros, tentando manter um ritmo interno que funcionasse como argamassa para o conjunto. E acabei fazendo um livro com três partes: o "Um a menos", que é a primeira; o "Dias assim"; e o "Minha voz".
CULT - Do que trata este livro?
Heitor - Não sei se consigo vislumbrar um tema específico, já que o livro reúne vários poemas, cada um buscando um assunto, um ritmo, uma matéria própria. Se há um ponto de ligação entre eles é talvez a minha visão pouco otimista do presente, da dificuldade da experiência se consolidar na vida contemporânea e um certo mal-estar que nos cerca.
Mas como em todos os meus livros há muito da minha vivência com a cidade, com minhas caminhadas, com a minha paisagem que é brutalmente urbana. Até tento jogar um pouco com esses elementos, entre uma paisagem "natural" e esta outra, da cidade, entre um bico de pássaro e o cano de um revólver, entre uma árvore e um prédio etc.
CULT - Como você analisa a produção atual de poesia no Brasil? Há poemas bons sendo feitos?
Heitor - Há muitos bons poemas sendo feitos hoje. Poderia começar falando do Carlito Azevedo, que está com uma poesia cada vez mais forte, mais contundente. Poderia citar ainda Marcos Siscar, Paula Glenadel, Angélica de Freitas, Annita Costa Malufe, Tarso de Melo, Ricardo Domeneck, Nuno Ramos, Marília Garcia, e um moço chamado Ismar Tirelli Neto, que li outro dia e que gostei muito. Enfim, vozes bem diferentes, é verdade.
Mas são poetas que vão delineando uma nova poesia brasileira, voltada mais para a experiência do presente, da diluição total do sujeito e dessa experiência, investigando as possibilidades da poesia de dar conta dessas coisas todas que vivemos, dessa época mesquinha, de alta tecnologia e pouca transformação social. Ao lado desses poetas, todos formados dos anos 1990 para cá, temos uma poesia de autores mais velhos, como Chico Alvim, Zuca Sardana, Chacal, Eudoro Augusto, e - um pouco mais velho que eles - Ferreira Gullar. Ainda temos muito a aprender com eles.
Gullar logo mais chega com um livro novo e, ao contrário do cronista, que é meio chatola, será um belo livro, a tomar pelos poemas que ele publicou em jornais e revistas nos últimos anos. Esse cara ainda é capaz de bagunçar o correto, de ventilar a poesia brasileira. São poetas que nos ajudam a não cair no ridículo.
CULT - Por que você escreve poemas?
Heitor - A poesia é a minha forma de expressão. Foi a maneira que encontrei, ainda na adolescência, de lidar com as matérias da vida. Gosto dessa possibilidade de trabalhar com vários materiais diferentes do cotidiano num mesmo espaço, que é o do poema. É onde posso juntar tudo e criar uma lógica própria, tanto na forma quanto no conteúdo. Confesso que o meu sonho mesmo era ser romancista, mas não levo nenhum jeito para a coisa.
Um a menos
Heitor Ferraz
7 Letras
76 págs.
R$ 25
|